segunda-feira, 29 de novembro de 2010

[ os pedaços de mim ]

Fluir. Esse verbo tem me consumido de forma avassaladora nos últimos dias. Tenho me deixado embalar por um enredo sinestésico, intenso e muito colorido. E a aquarela que está na ponta do meu pincel não obedece minha razão, aliás, é escrava de minha emoção. Olho para adiante e só consigo ter uma única certeza: sorrisos. Sorrisos meus, misturados aos teus, formando os nossos.

Dia desses fui à praia. Mas o fiz de uma maneira inusitada. Peguei um ônibus na avenida e desfilei meus pensamentos na passarela do cotidiano banal, que todo dia se apresenta para mim, e para você, e deixamos passar despercebido.

Pela janela do ônibus eu vi tanta coisa. Vi uma vida que passa despretenciosa, como que embalada por um samba na Lapa. Vi pessoas nunca antes vistas, mas que me derramaram conversas, olhares e cheiros. É, cheiro. E não me refiro ao cheiro perjorativo de quem maldiz o "andar de ônibus". Senti cheiro de gente. Senti cheiro de calor. Em poucos minutos, entrei na vida de um punhado de gente. Senti-me participando de cada estória que ia sendo contada. Ri muito dentro de mim, e descobri que esse é o melhor alimento para a alma... rir em silêncio.

Voltando ao motivo que me convocou ao ônibus, cheguei na praia com a cabeça borbulhando de idéias, de gente e de mim. Tudo fluiu extraordinariamente normal quando olhei de perto os grãos daquela areia fina que tracejam o litoral de nosso país. Meu marzão me abraçou com seu caldo quente de verão e tirou de mim todos os pedaços maltrapilhos, que ainda insistam em acizentar minha aquerela. Ah, e não conseguia pensar em outra coisa, que não na multidão de emoções que havia vivenciado há pouco, dentro de uma caixa com rodas que me liberou a quimera dos pensamentos.

Encerrado o compromisso com a praia, voltei ao start de meus delírios e aterrisei em outra condução, que me transportou para mais longe. Nessa viagem, tive o presente do acaso que me colocou no banco de trás o azul caribe dos olhos de meu amigo Bandeira. Havia vivido instantes de graça com ele dias atrás e lá estava novamente me contagiando pelo perfume da nossa amizade. A conversa curta, de quem está prestes a descer na próxima estação, permitiu-nos eternizar o carinho que há tanto tempo havíamos engavetado (tempo esse que não os dias atrás a que ali me referi, mas o de longas datas, quando ainda éramos sonhadores natos). Isso para mim foi a prva de quem o universo estava conspirando a favor.

Voltei para casa e, no banho, vi descer junto com a maresia os meus pedaços de mim. Tinha de toda cor, mas os que mais esvaiam eram os acinzentados. Foi aí que percebi o enorme valor de nos rendermos ao lado sutil que nossa vida nos presenteia diariamente. É. Isso mesmo. Aquele papinho clichê de que o Sol nasce e se põe todos os dias e não o percebemos arrebatou-me a alma e, de ontem em diante, só terei olhos para aquilo que fluir. Fluir em mim, com a velocidade de quem tem pressa para ir devagar.

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